Número Deletado
Um conto do dia das bruxas. Para Ana Tiê, a primeira pessoa que me contou essa história real.
Naquela noite de Halloween, a cidade parecia respirar mais devagar. Ela ria sozinha no sofá, zapeando filmes de terror antigos, quando o celular começou a tocar.
Sem foto, sem nome e sem dígitos.
Desconhecido: Oi.
Ela: Quem é?
Desconhecido: Consegui seu número com um amigo em comum.
Ela: Que amigo?
Desconhecido: Você não vai lembrar... mas eu lembro bem de você.
Ela suspirou, já cansada de abordagens assim.
Ela: Olha, não tenho paciência.
Desconhecido: Não é trote. É saudade.
Um arrepio subiu pela nuca.
Ela: Saudade de quem?
Desconhecido: De você. Como sei que tá sozinha hoje, resolvi ligar!
Ela: Se você não falar quem é, vou desligar!
Desconhecido: Vou deixar que meu número apareça… e se lembre de mim.
Um número desconhecido, estranhamente familiar!
Desconhecido: Lembrou?
Ela olhou o número outra vez. Nenhum contato salvo, nenhuma conversa anterior.
Ela: Não tem como sentir saudade de alguém que a gente não conhece.
Desconhecido: Ah, nos conhecemos, Ana! Você só prefere fingir que me esqueceu.
Quando falou o nome dela, o coração acelerou. Tentou tocar no número para bloquear, mas o celular travou e reiniciou sozinho.
Retornou à tela inicial. O registro da chamada sumira.
Apareceu uma notificação de mensagem.
Desconhecido: Não acredito que você apagou meu número.
Ela: (digitando dessa vez) Quem é você?
Desconhecido: Por que apagou meu número?
Ela gelou e bloqueou o número. As mensagens continuaram a chegar.
Ela: Eu não apaguei nada.
Desconhecido: Apagou sim. Como da última vez.
Ela: Você tá me confundindo.
Desconhecido: Não tô Ana. Você sempre fez isso, tentou me diminuir, me deletar da sua vida, nunca me valorizou. Estamos assim por sua causa.
E o pior era que, quanto mais ela ouvia, mais reconhecia, aquele jeito de dizer o nome dela, lento demais, íntimo demais, só podia ser trote.
Desconhecido: Vou te lembrar de quando nos conhecemos, eu vi uma luz em sua volta e entrei no seu trabalho e perguntei se acreditava em Deus e destino.
Ela lembrou de um ex que conhecera assim, era um cara bem alterado que invadiu a sala de aula onde ela estava, só que não podia ser ele. Não tinham mais contato!
O telefone voltou a tocar, com medo foi nas configurações e viu que o número estava bloqueado, ainda assim o celular tocava. Ela atendeu e ficou em silêncio.
Quinze minutos inteiros sem responder, com a tela acesa colada na lateral do seu rosto.
Mas ele continuava falando descrevendo o silêncio.
Desconhecido: Agora você está mordendo o lábio, como sempre fazia. (realmente estava)
Desconhecido: Tá com medo de falar, né? (simmmm)
Desconhecido: Seu quarto tá escuro, só a luz do celular iluminando seu no rosto. (acendeu as luzes, procurou câmeras, janelas fechadas)
Desconhecido: Continua usando o mesmo sabonete, quase consigo sentir o perfume dele daqui. ( O horror, O horror!).
Desconhecido: Você nunca aprendeu a se esconder direito de mim. Eu vou desligar e vou ai…
Sentiu o estômago embrulhar. Bloquear não funcionava. O sistema mostrava: “Número inexistente.”
O medo virou pavor
Ela arrancou o chip, desligou o aparelho e jogou dentro da gaveta.
Silêncio.
Respirou fundo. Tentou rir de si mesma.
Mas à meia-noite em ponto, o quarto se iluminou por um instante, o telefone desligado começou a vibrar, o som do toque começou a preencher o quarto.
A tela piscava com o mesmo número. Ela não atendeu, e uma notificação chegou
na mensagem em letras de caixa alta, apareceu:
“NÃO VAI ME ATENDER? JÁ SAI DE CASA E VOU AI FAZER VOCÊ SE LEMBRAR DE MIM!”
Desesperada, começou a chorar!
Quando ela lembrou de um feitiço antigo que sua avó lhe ensinara, quando ainda era menina. A velha dizia que toda mulher é uma feiticeira, e que mais cedo ou mais tarde precisaria saber lançar seus próprios feitiços. “Somos todas bruxas,” dizia a avó, “algumas se aceitam, outras ainda têm medo do espelho.” Tremendo, ela acendeu uma vela no criado-mudo, acendeu também um incenso de alecrim e colocou o celular diante da chama. Passou o aparelho lentamente pela fumaça, murmurando as palavras que lembrava, enquanto ele ainda vibrava: “Que a chama consuma o que é sombra, que a fumaça carregue o que não é meu…” O cheiro da erva misturava-se ao medo. A vela tremulava sozinha, como se respirasse. Por um instante, ela jurou ver uma silhueta se desfazendo na tela, e o número desconhecido, finalmente, desapareceu.
Na tarde do dia seguinte, quando criou coragem de recolocar o chip no celular, a tela se encheu de notificações.
O grupo de WhatsApp da cidade estava em alvoroço. Mensagens, vídeos, prints de jornais todos só falavam da mesma coisa.
“Cemitério amanhece com túmulo quebrado de dentro pra fora.”
“Imagens mostram fumaça saindo do solo às 00h03, horário em que vários moradores da redondeza relataram quedas de energia.”
“Segundo os funcionários, o celular queimado estava agarrado à mão carbonizada que restava do corpo ”
“Dizem que ouviram uma voz pedindo pra ligar pra alguém.”
Logo começaram as declarações oficiais:
Nota da Polícia Civil:
“Não há sinais de invasão externa. O túmulo parece ter cedido por dentro.
A perícia identificou calor intenso e resíduos de lítio, compatíveis com a combustão de uma bateria de celular.”
Administração do Cemitério São Miguel:
“Nunca vimos nada parecido. As câmeras de segurança travaram entre meia-noite e meia-noite e cinco. Quando voltaram, uma leve névoa cobria o setor.”
Ela rolava as mensagens em silêncio.
O sangue parecia mais frio a cada palavra.
Até que viu uma última foto da manchete compartilhada centenas de vezes:
Da lápide, a mesma que ela conhecia:
Parecia ter envelhecido décadas em uma só noite. As rachaduras formavam veias negras pelo mármore, e a fotografia oval, antes nítida, agora estava coberta por uma fina película de fuligem. as flores queimadas e o chão escurecido No topo da pedra, a inscrição, o nome do seu ex abusivo, antes dourada, estava cinza, corroída. E bem no meio da lápide, marcado por fumaça e cinza, alguém, ou alguma coisa, havia traçado uma única frase pela metade com os próprios dedos:
“Atende pu...”
Era o túmulo do seu ex que ela havia jurado esquecer.
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